Durante o evento promovido pela Mercedes-Benz do Brasil na concessionária De Nigris para apresentar detalhes do programa Move Brasil, um convidado chamava atenção pelo peso que representa no mercado: Urubatan Helou, presidente e fundador da Braspress. A reportagem da Frota News aproveitou a ocasição para uma rápida entrevista sobre temas atuais.
À frente de uma frota superior a 3 mil caminhões — com cerca de 70% da marca da estrela — Helou falou sobre juros, custo de capital, antecipação de compras e, principalmente, sobre a transição energética na operação da companhia.
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Para Helou, o principal entrave à ampliação dos investimentos não está na demanda por transporte, mas no custo do dinheiro. “Estamos vivendo hoje com uma Selic de 15% e uma inflação projetada de 3,5%. Portanto, falamos de um juro nominal de 12,5%. É o juro mais escabroso do mundo”, afirmou.
Na avaliação do executivo, o descompasso entre a taxa de juros e a rentabilidade média do setor compromete decisões de investimento. Segundo ele, a margem média de uma transportadora gira em torno de 8%, percentual inferior ao custo nominal do capital.
“Os juros são muito maiores do que isso. Portanto, tem que abaixar. Quanto mais você abaixar o custo de capital e o capex investido, melhor é o programa”, destacou, referindo-se ao Move Brasil.
Mesmo com a expectativa do mercado de redução da Selic para algo entre 11% e 12% no segundo semestre, Helou considera o patamar ainda elevado. “É ruim. Só diminui o tamanho do veneno”, resumiu.
Move Brasil: antecipação de compras?
Questionado se o programa pode gerar apenas uma antecipação de compras, Helou ponderou que a efetividade depende essencialmente do custo financeiro atrelado às operações.
“Esse programa pode ser uma antecipação de compras, mas ele precisa trazer no seu conteúdo um custo de capital mais baixo”, afirmou.
Na Braspress, segundo ele, ainda não há decisão formal sobre adesão imediata. “Precisamos fazer alguns estudos”, explicou.
A fala reforça um ponto sensível no setor: programas de estímulo à renovação de frota tendem a ganhar tração quando combinam previsibilidade econômica e funding competitivo — fatores determinantes para operações intensivas em capital como o transporte rodoviário de cargas.
Eletrificação avança na operação urbana
Se no campo financeiro a cautela prevalece, na agenda ambiental o discurso é mais assertivo. Helou confirmou que a empresa já opera 60 veículos elétricos, entre caminhões e furgões, e ampliará os testes.
A companhia está rodando quatro unidades do Mercedes-Benz eActros em operação urbana, a partir da filial da Cantareira, na capital paulista.
“Excepcional”, definiu ao avaliar o desempenho do modelo.
A estratégia é utilizar os veículos no perímetro urbano atendido pela unidade de Cantareira, que realiza operações nas regiões do Brás e do Bom Retiro. A meta é transformar a filial em uma operação 100% sustentável.
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Capex elevado, mas payback competitivo
Apesar do entusiasmo, o executivo reconhece que o investimento inicial ainda é o maior obstáculo. “Para cada caminhão elétrico você compra dois ou três a diesel. O capex é alto”, comparou.
Por outro lado, ele destaca que a amortização ocorre em prazo relativamente curto, impulsionada principalmente pela economia com combustível.
“Você amortiza isso em um período de quase dois anos e meio, que é uma amortização rápida, pela ausência de abastecimento”, explicou. Mesmo assim, o ambiente de juros elevados encarece ainda mais a equação financeira. “Torna mais caro ainda”, reforçou.
Meta de longo prazo: frota 100% elétrica
Ao projetar o futuro, Helou foi direto: “Gostaríamos de ter 100% da frota elétrica”.
A declaração, vinda de um dos maiores compradores da Mercedes-Benz do Brasil no país, sinaliza que a transição energética no transporte rodoviário de cargas não é mais um discurso institucional, mas uma agenda estratégica concreta — ainda que dependente de condições macroeconômicas mais favoráveis.
Entre juros elevados e baterias cada vez mais eficientes, a equação da renovação de frota no Brasil passa, inevitavelmente, por dois fatores centrais: custo de capital e inovação tecnológica. E, na visão de Urubatan Helou, ambos precisam evoluir — cada um à sua maneira — para que o setor avance em ritmo sustentável.
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