quarta-feira, março 25, 2026

Biometano entra na pressão sobre Brasília: ABiogás cobra que subsídio ao diesel inclua renováveis para cortar dependência externa

A escalada do petróleo reacendeu, com força, a disputa por espaço dentro das políticas emergenciais do governo federal. E, desta vez, o recado da cadeia do biogás e do biometano foi enviado pela Abiogás, mas só para os seguidores dela no LinkedIn. Em resumo, a Abiogás publicou: se a União vai mobilizar recursos para amortecer o impacto (preço) do diesel, precisa aproveitar a crise para financiar uma solução estrutural — e não apenas apagar incêndios no curto prazo.

O comunicado da entidade, que representa a indústria de biogás e biometano no Brasil, foi em razão da Medida Provisória 1.340/2026. Após filtrar os preâmbulos diplomáticos que costumam acompanhar manifestações institucionais, a leitura técnica feita pela Frota News mostra um objetivo: incluir o biometano entre os energéticos estratégicos contemplados por eventuais subvenções e incentivos, especialmente para acelerar sua entrada no transporte pesado.

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A entidade reconhece a relevância da MP 1.340/26, mas sustenta que os recursos públicos precisam ser alocados “de forma estratégica”, com foco em setores nacionais capazes de reduzir a dependência brasileira do diesel importado, gerar empregos, renda e ganhos ambientais. Em outras palavras, a ABiogás defende que uma crise internacional de preços não pode ser tratada apenas com remendo fiscal; ela deve servir de gatilho para uma política industrial e energética de longo prazo.

A mensagem é politicamente sensível e economicamente pragmática. Na prática, a ABiogás pede que políticas públicas e incentivos fiscais direcionados aos combustíveis fósseis também sejam estendidos aos renováveis, com atenção especial ao biometano.

A lógica é simples: sempre que o petróleo sobe e o diesel pressiona inflação, frete e custos operacionais, o governo é empurrado a discutir compensações, desonerações ou subvenções. O setor do biometano argumenta que parte desses recursos poderia — e deveria — financiar uma redução permanente da vulnerabilidade brasileira, substituindo gradualmente o diesel importado por produção doméstica de combustível renovável.

Para a entidade, esse desenho pode combinar três resultados simultâneos: redução de emissões; segurança energética; desenvolvimento econômico local, com geração de empregos e renda em cadeias regionais.

É exatamente esse o ponto que aproxima o discurso da ABiogás do que já vinha sendo defendido por outras frentes dos biocombustíveis, como a AliançaBiodiesel, coalizão formada por ABIOVE e APROBIO, cujos comunicados já foram analisados pela Frota News. Agora, o setor do biometano entra no mesmo embate, mas com uma tese própria: o Brasil precisa usar a crise do diesel importado para destravar a infraestrutura produtiva de um combustível que pode abastecer ônibus e caminhões com menor intensidade de carbono.

 

Frota pesada: 2,6 milhões de veículos dependentes do diesel

O argumento da ABiogás ganha peso quando aterrissa no tamanho do problema. Segundo a entidade, o Brasil possui uma frota em torno de 2,6 milhões de ônibus e caminhões dependentes de diesel. Esse dado está alinhado à ordem de grandeza observada em estudos recentes sobre o transporte pesado nacional: levantamento citado pelo setor aponta cerca de 2,3 milhões de caminhões atualmente, com expansão projetada até 2040, o que reforça a centralidade do diesel na logística brasileira.

Para a associação, é “extremamente relevante” que as políticas públicas passem a prever a inclusão do biometano na frota pesada por duas vias principais:

1. fundos específicos para troca de motorização (a Frota News já publicou reportagens sobre retrofit sobre a troca do trem de força diesel Euro 3 ou 5 por motor Euro 6 a gás);

2. incentivos à construção de novas plantas de biometano, acelerando a produção do energético.

Uma vez feito o investimento produtivo e viabilizada a troca tecnológica, a substituição do diesel por biometano deixa de ser conjuntural e passa a ser estrutural e permanente.

Esse ponto interessa diretamente aos gestores de frota, embarcadores e operadores de transporte. Diferentemente de medidas pontuais de compensação de preço, o biometano entra como uma rota de redução contínua da exposição ao mercado internacional de petróleo — algo especialmente relevante em operações de alta quilometragem, transporte urbano de passageiros e contratos logísticos sensíveis ao custo energético.

Equivalência 1 para 1 e potencial de substituição

A ABiogás sustenta sua proposta com um argumento operacional de fácil compreensão para o setor: a equivalência energética entre diesel e biometano é, em linhas gerais, de 1 para 1, isto é, 1 litro de diesel corresponde aproximadamente a 1 m³ de biometano.

A partir dessa referência, a entidade afirma que estudos internos apontam uma capacidade teórica de curto prazo para produzir o equivalente a cerca de 35 milhões de m³ por dia, volume que representaria aproximadamente 75% do diesel importado destinado ao transporte pesado.

É uma projeção ambiciosa — e claramente usada como instrumento de pressão política. Ainda assim, ela ajuda a dimensionar a tese central da associação: o biometano já não é apresentado como nicho experimental, mas como vetor de escala nacional.

A ABiogás também desenha cenários de política pública. Segundo ela, com uma subvenção de R$ 10 bilhões para expandir a produção, seria possível substituir 8% da demanda do diesel importado; e em um cenário acelerado, com apoio de subvenção e financiamento do BNDES, a substituição poderia chegar a 25% do diesel importado.

Logíco que não é simples assim. É preciso ter uma frota de caminhões e ônibus movidos a gás. Hoje, a Natura tem a sua logística de transporte rodoviário de carga dentro do Estado de São Paulo realizada por 28 caminhões Scania a gás. Goiânia vai entregar, na próxima semana ao sistema de transporte público com ônibus Scania a gás. E o restante da indústria de veículos comerciais? A Iveco lançou os caminhões a gás dela na última Fenatran, mas pouco se sabe se foi só marketing ou há uma entrega concreta. As outras montadoras ainda estão em fase de desenvolvido.

Para a substituição dos caminhões a diesel em circulação por motores a gás modernos e que atendem a Euro 6, é conhecida a solução de uma empresa brasileira, a MWM Motores. Essa solução já foi aplicada em algumas frotas, mas é preciso saber mais sobre ela e os gestores de frotas precisam conhecer esta solução.

O peso econômico do biometano: investimento com efeito multiplicador

Outro eixo do posicionamento da ABiogás é o argumento macroeconômico. A entidade afirma que cada R$ 1 investido na cadeia do biometano gera efeitos multiplicadores relevantes na economia, com criação de empregos e renda local.

Embora o comunicado divulgado nas redes não detalhe a metodologia, o raciocínio já foi publicado em outras reportagens da Frota News sobre a lógica da cadeia que transforma passivo ambiental em ativo energético: produção distribuída, aproveitamento de resíduos agroindustriais, saneamento, aterros, proteína animal e agroenergia. Isso significa que o investimento não se concentra apenas em refinarias ou importação de combustível, mas se espalha por cadeias regionais e infraestrutura local.

Para a Frota News, o comunicado da ABiogás reforça um ponto que o setor de transporte precisa encarar sem ideologia e com pragmatismo: a transição energética do caminhão e do ônibus no Brasil não será feita por uma única tecnologia. Mas, se o objetivo é atacar rapidamente a dependência do diesel, com uso intensivo em operações dedicadas e ganhos ambientais relevantes, o biodiesel e o biometano deixaram de ser coadjuvantes no transporte rodoviário e de ônibus urbano; e o elétrico, no transporte urbano de carga e de passageiros.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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