sexta-feira, janeiro 30, 2026

A Tata se tornará para a Iveco o que a PACCAR é para a DAF?

A aquisição de uma “marca nacional de caminhões” pode colocar um país em turbulência. A Holanda se lembra bem disso após a compra da DAF Trucks pela Paccar nos anos 1990.

Na Itália, atualmente, sindicatos e partidos políticos criticam a venda da Iveco por parte da família Agnelli (entre outros acionistas), temendo a perda de empregos e conhecimento. Mas a aquisição também pode ser positiva para a Iveco?

De Milão, o jornalista e juri do IToY, Gianenrico Griffini, analisa os riscos e oportunidades para a marca, em reportagem para a revista holandesa TTM.nl, e compartilhada por nós jornalistas também membros do IToY.

Por Gianenrico Griffini 

Após meses de rumores, a confirmação oficial veio no fim de julho: o Iveco Group e a Tata Motors chegaram a um acordo para criar um player líder no setor de transporte, com alcance global, amplo portfólio de produtos e sólidas capacidades industriais.

A notícia encerra uma trajetória iniciada em 2021, quando fracassou a tentativa de compra da Iveco pela estatal chinesa FAW (First Automotive Works) por motivos políticos. Depois disso, houve uma aproximação com a Hyundai Motor Company, que resultou na assinatura de um memorando de entendimento (MoU) em março de 2022 para explorar oportunidades de negócios conjuntos, e o desinvestimento do setor de bombeiros do Grupo Iveco, anunciado em março de 2024 e concluído no início deste ano, com a venda da Magirus para a holding alemã Mutares.

A aquisição do Iveco Group, por 3,8 bilhões de euros, será realizada por meio de uma oferta pública voluntária da Tata Motors. A operação, prevista para ser concluída no primeiro semestre de 2026, depende de aprovações regulatórias — nas áreas de fusões, investimento estrangeiro direto, Regulamento de Subsídios Estrangeiros da União Europeia e normas financeiras —, além da cisão do braço de defesa, que inclui as divisões industriais Iveco Defence Vehicles (IDV) e Astra.

Venda do ramo de defesa abre caminho para a aquisição

No dia 30 de julho, foi anunciada a assinatura do acordo definitivo para a venda deste braço à Leonardo, empresa europeia líder no setor de defesa e segurança, por 1,7 bilhão de euros. A Leonardo, por sua vez, firmou no ano passado uma joint venture 50/50 com a alemã Rheinmetall — chamada Leonardo Rheinmetall Military Vehicles (LRMV) — para criar um novo núcleo europeu de desenvolvimento e produção de veículos militares.

O desinvestimento no setor de defesa, que abriu caminho para a oferta da Tata Motors, dará origem a um player europeu relevante no segmento de defesa terrestre, com porte e competências para competir globalmente.

Portfólios complementares e diversificação global

Se concluída com sucesso, a aquisição permitirá unir recursos de empresas com portfólios altamente complementares, sem sobreposição industrial ou geográfica. Isso cria uma entidade mais forte e diversificada, com presença global expressiva e vendas superiores a 540 mil unidades por ano.

Juntas, as operações de veículos comerciais da Iveco e da Tata Motors terão receitas combinadas de cerca de 22 bilhões de euros, distribuídas entre Europa (cerca de 50%), Índia (cerca de 35%) e Américas (cerca de 15%), com posições atraentes em mercados emergentes da Ásia e da África.

Foco em inovação e mobilidade sustentável

Segundo declaração conjunta das empresas, “a combinação das duas companhias estará mais bem posicionada para investir e fornecer soluções de mobilidade inovadoras e sustentáveis, alavancando as redes de fornecedores para atender clientes globalmente. Isso também desbloqueará oportunidades superiores de crescimento e criará valor significativo para todas as partes interessadas em um mercado dinâmico”.

Ao preservar as operações industriais e comunidades de trabalhadores de cada grupo, a expectativa é de que a complementaridade facilite um processo de integração tranquilo. “No contexto de transformação rápida do setor de transporte, a combinação estratégica da Tata Motors e do Iveco Group criará uma plataforma robusta, com base global de clientes e presença geográfica diversificada”, diz o comunicado.

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Estratégia multienergia da Iveco continuará

Entre os pontos positivos do acordo está o compromisso da Tata Motors de apoiar a estratégia do Iveco Group, ajudando a executar e acelerar os planos de crescimento.

A Iveco tem adotado uma abordagem multienergia, oferecendo veículos com motores a diesel, gás natural (comprimido ou líquido), elétricos a bateria (BEV) e movidos a célula de combustível de hidrogênio (FCEV).

Essa estratégia é fortalecida por parcerias estratégicas, como a colaboração com a Hyundai no desenvolvimento de células de combustível para veículos comerciais e ônibus; com a Ford Trucks, em um investimento de 343 milhões de euros, para criar uma nova geração de cabines que atendam às normas europeias de visão direta e que chegarão ao mercado em 2028; e com a Plus, para o desenvolvimento de veículos autônomos.

Manutenção da identidade da marca e sede em Turim

Pelo acordo, o conselho de administração da Iveco seguirá tomando decisões estratégicas para o crescimento de longo prazo, sem grandes reestruturações ou fechamento de fábricas. A Tata Motors garante que a sede da Iveco permanecerá em Turim, preservando identidade corporativa, valores fundamentais, cultura organizacional e as principais marcas do grupo.

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Mercado europeu vive momento delicado

A notícia da aquisição surge em um momento delicado para o mercado europeu de veículos comerciais. No primeiro semestre, as matrículas caíram 15,4% para caminhões acima de 3,5 toneladas e 13,2% para veículos comerciais leves na União Europeia. Além disso, persistem incertezas sobre o crescimento econômico global e as metas de redução de emissões de CO₂, que exigem cortes de 15% este ano (em relação a 2019-2020) e 45% até 2030, podendo ser revisadas pela Comissão Europeia.

Nesse contexto, alianças estratégicas estão sendo promovidas por grandes players, como a Milence (joint venture entre Daimler Truck, Traton e Volvo, criada em 2022), voltada à criação de uma rede de recarga para caminhões elétricos na Europa; a Cellcentric (Daimler Truck e Volvo, 2021), para desenvolvimento conjunto de células de combustível; e a Coretura (Daimler Truck e Volvo, 2025), para o avanço de plataformas veiculares definidas por software.

Tempo é fator crítico para o negócio

Concluir rapidamente a oferta pública da Tata Motors é essencial para que a nova estrutura esteja plenamente operacional. Um prazo muito longo pode comprometer o desempenho da Iveco no curto prazo e atrasar a execução de suas estratégias de longo prazo.

Iveco como marca premium dentro da Tata

Após a aquisição, a Iveco deverá assumir o papel de marca premium do grupo, especialmente em mercados regulados e maduros, enquanto a Tata mantém sua linha tradicional para países com maior sensibilidade a custos, como a Índia.

No entanto, sustentar essa posição premium na União Europeia exigirá investimentos significativos da Tata, tanto para fortalecer as linhas Daily e Eurocargo quanto para ampliar a participação no segmento de pesados, onde a Iveco ainda tem menos de 10% do mercado.

Expansão e sinergias globais

Para crescer, será necessário ampliar a presença da Iveco além de seus principais mercados (Itália, Espanha e França) e aumentar a capacidade de produção nas fábricas espanholas, além de decidir sobre a integração das linhas de caminhões convencionais (Madri) e elétricos (Ulm, Alemanha).

As gamas de produtos das duas empresas — Daily, Eurocargo, S-Way, X-Way e T-Way, da Iveco; Ace, Intra, Yodha, Prima, Signa, Ultra e LPT, da Tata — não se sobrepõem, o que facilita um posicionamento complementar em regiões como América do Sul, África e Ásia.

No longo prazo, a Iveco pode se beneficiar do crescimento de mercados fora da União Europeia, onde transportadoras estão migrando de veículos básicos e baratos para modelos médios e premium, como já ocorre na China, onde a participação de caminhões premium europeus no mercado saltou de cerca de 1% para até 15–20% ao final da década, segundo especialistas.

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Marcos Villela Hochreiter
Marcos Villela Hochreiterhttps://www.frotanews.com.br
Atuo como jornalista no setor da mobilidade desde 1989 em diversas redações. Também nas áreas de comunicação da Fiat e da TV Globo, e depois como editor da revista Transporte Mundial por 22 anos, e diretor de redação de núcleo da Motor Press Brasil. Desde 2018, represento o Brasil no grupo do International Truck of the Year (IToY), associação de jornalistas de transporte rodoviário de 34 países. Desde 2021, também atuo como colaborador na Fabet (Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, entidade educacional sem fins lucrativos). Em 2023, fundei a plataforma de notícias de transporte e logística Frota News, com objetivo de focar nos temas que desafiam as soluções para gestão de frotas.
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