Não é novidade para os gestores de frotas que o transporte brasileiro convive com um gargalo que deixou de ser conjuntural e passou a comprometer a eficiência operacional das empresas: a escassez de motoristas profissionais. Em razão disso, a Confederação Nacional do Transporte (CNT) tem feito um monitoramento mais frequente e, o mais recente, mostra que o problema se espalha por todos os segmentos e atinge níveis preocupantes. No transporte de cargas, 44,6% das empresas relatam vagas abertas para motoristas. No transporte urbano de passageiros, o índice sobe para 50,6%, enquanto no transporte rodoviário de passageiros alcança 55,6%.
Para gestores de frotas, operadores logísticos e transportadores, o dado revela mais do que dificuldade de contratação. Ele sinaliza risco à continuidade do serviço, aumento de custos e perda de competitividade em um setor já pressionado por combustível, manutenção, pedágios e exigências regulatórias.
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Segundo a CNT, a falta de motoristas é resultado de uma combinação de fatores estruturais e conjunturais. Ajustes recentes na legislação, como mudanças no processo de obtenção da Carteira Nacional de Habilitação (CNH), podem aliviar parte da pressão, mas não atacam a raiz do problema.
O Plano Nacional de Logística (PNL) 2050 aponta que a escassez de motoristas no Brasil não decorre apenas de um ciclo econômico desfavorável. Trata-se de um problema estrutural associado à baixa atratividade da profissão, à remuneração relativa pouco competitiva, às condições de trabalho desgastantes, à alta rotatividade e à imagem negativa da ocupação, especialmente entre os mais jovens.
Esse diagnóstico ajuda a explicar por que, mesmo em momentos de desaceleração econômica, as empresas seguem com dificuldade para preencher vagas.
Exigências elevadas, atratividade baixa
Do ponto de vista conjuntural, a CNT destaca fatores que agravam o cenário: a alta responsabilidade envolvida na função, os desafios diários do trânsito, os riscos à segurança pessoal e patrimonial e a exigência de qualificações específicas, como CNH nas categorias D ou E e cursos especializados.
Para o gestor de frota, o resultado é um mercado de trabalho cada vez mais restrito. Profissionais habilitados tornam-se disputados, elevando custos de contratação e pressionando salários, sem que isso, necessariamente, se traduza em maior retenção no médio prazo.
Mudanças na CNH: alívio parcial
O governo federal aposta em alterações recentes no processo de habilitação como parte da solução. Medidas implementadas pelo Ministério dos Transportes, como o fim da obrigatoriedade de aulas em autoescolas, têm como objetivo reduzir o custo de entrada na profissão e acelerar a formação de novos motoristas de caminhão e ônibus.
A resolução do Conselho Nacional de Trânsito (Contran) também prevê a oferta de cursos com custos reduzidos ou gratuitos por meio do Sest/Senat, ampliando o acesso para trabalhadores de menor renda.
Na avaliação da CNT, essas iniciativas são positivas, desde que não comprometam a segurança.
Formação existe, retenção não
Um dos pontos centrais do debate é que o Brasil até consegue formar motoristas, mas não consegue mantê-los na atividade. Em janeiro de 2024, uma parceria entre o Ministério do Desenvolvimento Social e a CNT passou a capacitar inscritos no Cadastro Único interessados em obter habilitação profissional. A iniciativa mira um déficit estimado em 1,5 milhão de motoristas profissionais no país.
O programa oferece cursos profissionalizantes, possibilidade de contratação imediata, salários médios acima de R$ 3 mil e benefícios formais, como FGTS e plano de saúde. Ainda assim, o desafio permanece: competir com outros setores da economia que disputam esses mesmos profissionais.
Competição intersetorial e perda de talentos
Motoristas com CNH D ou E são cada vez mais atraídos por segmentos como mineração, construção pesada e agronegócio, que oferecem maior previsibilidade de jornada, melhor infraestrutura e, em alguns casos, menor exposição a riscos. No transporte urbano e rodoviário, a migração também ocorre para atividades alternativas, inclusive fora do setor, em busca de melhor qualidade de vida.
No transporte de longa distância, os obstáculos são conhecidos: roubo de cargas, infraestrutura rodoviária precária, longos períodos longe da família e pressão constante por prazos.
O que o setor defende
A CNT reforça que a solução passa por um conjunto de medidas: ajustes regulatórios, ampliação do acesso à qualificação, mas, sobretudo, melhoria das condições de trabalho. A entidade destaca que a demanda por motoristas é nacional, não restrita a grandes centros, e que a qualificação precisa ser contínua, acompanhando a evolução tecnológica dos veículos e das operações logísticas.


