O transporte coletivo brasileiro vive um dilema curioso: de um lado, as empresas de ônibus querem reduzir custos a qualquer preço; de outro, precisam oferecer conforto e confiabilidade para um passageiro cada vez mais exigente. Nesse tabuleiro, dois modelos se enfrentam há anos: o Volksbus 17.230 e o Mercedes-Benz OF 1721. Ambos são “peso médio” do segmento, homologados para 17 toneladas, mas seguem filosofias diferentes.
A Viação Pioneira, uma das empresas de transporte público urbano do Distrito Federal, com sede em Brasília, tinha essas duas opções para fazer a renovação da frota de ônibus urbano de baixo custo que envolveu a compra de 444 unidades e um investimento superior a R$ 500 milhões com subsídios públicos: Volksbus 17.230 ou Mercedes-Benz OF 1721.
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A escolha foi pela marca de três estrelas e não havia uma terceira opção. Antes de analisarmos questões econômicas, como preço e taxas de juros, vamos comparar os dois modelos.
O motor conta a história
O Volksbus vem com um MAN de 4 cilindros e 4,6 litros, entregando 225 cv e 850 Nm de torque. É mais potência e mais força do que o Mercedes, que mantém o conhecido OM 924 LA de 4,8 litros, com 208 cv e 780 Nm.
Na prática, o Volksbus acelera com mais disposição em rampas e retomas, principalmente no anda-e-para das grandes cidades. Já o Mercedes aposta na tradição: é um motor que o mercado conhece de cor e salteado, com reputação de confiabilidade que pesa muito na decisão do frotista.

No entanto, Brasília é plana e não tem trânsito de São Paulo. A questão geográfica da Capital Federal não favorece as características do Volksbus e atrapalham os argumentos técnicos do vendedor da Dibracam, concessionária VWCO em Brasília. Ponto para quem oferece melhor preço e menor taxa de juros.
Câmbio e suspensão: o novo contra o velho
Aqui, a Volkswagen ousou mais. Oferece câmbio automático de 8 marchas, além do manual de 6. O custo do câmbio automático? Alto. A passagem paga pelo passageiro e o subsídio? Baixo. O conforto e segurança do motorista e passageiros? É tendência mundial: quanto menos o motorista se preocupar em trocar marcha, mais sobra atenção para o trânsito e menos se gasta de combustível. Quem se preocupa com isso?
A Mercedes, por enquanto, segue no manual de 6 marchas como padrão, com automatizado só sob encomenda. Cãmbio manual deveria ser proibido em ônibus para o transporte público por uma questão da saúde dos motoristas, já que há alternativas melhores e mais seguras.
Na suspensão, a VW novamente avança: dá ao cliente a opção de bolsões pneumáticos no lugar das molas metálicas. Conforto para o passageiro, menos tranco na carroceria, maior durabilidade. A Mercedes? Fiel ao seu feixe de molas semi-elípticas de caminhão. É barato, é robusto, mas é a solução do século passado.
Segurança e eletrônica: ponto de equilíbrio
Nos dois modelos, a lista de eletrônica embarcada é extensa, mais por exigência da legislação brasileira: ABS, controle de estabilidade, assistente de partida em rampa. A Mercedes ainda coloca de fábrica o Top Brake (não obrigatório por lei) e oferece o retarder Telma como opcional. Do lado da VW, entram recursos como EBD e ATC, que ajudam no controle do veículo em piso escorregadio.
Empate técnico? Quase. A Mercedes tem um trunfo: a conectividade. O Fleetbus, sistema de telemetria embarcada, coloca na tela do gestor cada litro de diesel consumido, cada freada brusca, cada quilômetro rodado. A VW ainda não entrega essa digitalização de série.
Capacidade: números iguais
Os dois chassis trabalham com PBT de 17 toneladas. Mas há diferenças sutis. O Volksbus, com entre-eixos de até 5,95 metros, permite carrocerias de até 10,79 metros — muito usado em linhas urbanas e até em BRTs de média capacidade.
Em uma análise técnica, a escolha da Viação Pioneira foi financeira e emocional, e até mesmo por não ter uma terceira opção. O longo relacionamento com a Mardisa, concessionária Mercedes-Benz de Brasília, influencia os fatores emocional e financeiro.
O depoimento de Fernando Eloia, diretor administrativo da Viação Pioneira, comprova a relação emocional e financeira que tem com a concessionária da Mercedes-Benz, mostrando que relacionamento é muito importante e que pequenas vantagens técnicas não decidem escolhas. Leia a fala do executivo que a própria Mercedes-Benz divulgou para mostrar a admiração que o profissional tem pela marca:
“Atualmente, temos cerca de 740 ônibus em operação na nossa frota 100% Mercedes-Benz, a maioria OF 1721, juntamente com modelos como o micro LO 916 e O 500 U, M e articulados”, informa Fernando Eloia, diretor administrativo da Viação Pioneira. “Historicamente, a Mercedes-Benz tem sido uma das principais fornecedoras para o setor. A Viação Pioneira, ao longo de sua trajetória, sempre operou uma frota significativa de veículos, sendo muito comum que empresas desse porte estabeleçam parcerias duradouras com montadoras de renome. No caso da Mercedes-Benz, ela é uma gigante mundial na produção de chassis de ônibus, amplamente utilizados no Brasil devido à sua robustez, confiabilidade e rede de assistência técnica”.


