A aquisição de uma “marca nacional de caminhões” pode colocar um país em turbulência. A Holanda se lembra bem disso após a compra da DAF Trucks pela Paccar nos anos 1990.
Na Itália, atualmente, sindicatos e partidos políticos criticam a venda da Iveco por parte da família Agnelli (entre outros acionistas), temendo a perda de empregos e conhecimento. Mas a aquisição também pode ser positiva para a Iveco?
De Milão, o jornalista e juri do IToY, Gianenrico Griffini, analisa os riscos e oportunidades para a marca, em reportagem para a revista holandesa TTM.nl, e compartilhada por nós jornalistas também membros do IToY.
Por Gianenrico Griffini
Após meses de rumores, a confirmação oficial veio no fim de julho: o Iveco Group e a Tata Motors chegaram a um acordo para criar um player líder no setor de transporte, com alcance global, amplo portfólio de produtos e sólidas capacidades industriais.
A notícia encerra uma trajetória iniciada em 2021, quando fracassou a tentativa de compra da Iveco pela estatal chinesa FAW (First Automotive Works) por motivos políticos. Depois disso, houve uma aproximação com a Hyundai Motor Company, que resultou na assinatura de um memorando de entendimento (MoU) em março de 2022 para explorar oportunidades de negócios conjuntos, e o desinvestimento do setor de bombeiros do Grupo Iveco, anunciado em março de 2024 e concluído no início deste ano, com a venda da Magirus para a holding alemã Mutares.
A aquisição do Iveco Group, por 3,8 bilhões de euros, será realizada por meio de uma oferta pública voluntária da Tata Motors. A operação, prevista para ser concluída no primeiro semestre de 2026, depende de aprovações regulatórias — nas áreas de fusões, investimento estrangeiro direto, Regulamento de Subsídios Estrangeiros da União Europeia e normas financeiras —, além da cisão do braço de defesa, que inclui as divisões industriais Iveco Defence Vehicles (IDV) e Astra.
Venda do ramo de defesa abre caminho para a aquisição
No dia 30 de julho, foi anunciada a assinatura do acordo definitivo para a venda deste braço à Leonardo, empresa europeia líder no setor de defesa e segurança, por 1,7 bilhão de euros. A Leonardo, por sua vez, firmou no ano passado uma joint venture 50/50 com a alemã Rheinmetall — chamada Leonardo Rheinmetall Military Vehicles (LRMV) — para criar um novo núcleo europeu de desenvolvimento e produção de veículos militares.
O desinvestimento no setor de defesa, que abriu caminho para a oferta da Tata Motors, dará origem a um player europeu relevante no segmento de defesa terrestre, com porte e competências para competir globalmente.
Portfólios complementares e diversificação global
Se concluída com sucesso, a aquisição permitirá unir recursos de empresas com portfólios altamente complementares, sem sobreposição industrial ou geográfica. Isso cria uma entidade mais forte e diversificada, com presença global expressiva e vendas superiores a 540 mil unidades por ano.
Juntas, as operações de veículos comerciais da Iveco e da Tata Motors terão receitas combinadas de cerca de 22 bilhões de euros, distribuídas entre Europa (cerca de 50%), Índia (cerca de 35%) e Américas (cerca de 15%), com posições atraentes em mercados emergentes da Ásia e da África.
Foco em inovação e mobilidade sustentável
Segundo declaração conjunta das empresas, “a combinação das duas companhias estará mais bem posicionada para investir e fornecer soluções de mobilidade inovadoras e sustentáveis, alavancando as redes de fornecedores para atender clientes globalmente. Isso também desbloqueará oportunidades superiores de crescimento e criará valor significativo para todas as partes interessadas em um mercado dinâmico”.
Ao preservar as operações industriais e comunidades de trabalhadores de cada grupo, a expectativa é de que a complementaridade facilite um processo de integração tranquilo. “No contexto de transformação rápida do setor de transporte, a combinação estratégica da Tata Motors e do Iveco Group criará uma plataforma robusta, com base global de clientes e presença geográfica diversificada”, diz o comunicado.
Estratégia multienergia da Iveco continuará
Entre os pontos positivos do acordo está o compromisso da Tata Motors de apoiar a estratégia do Iveco Group, ajudando a executar e acelerar os planos de crescimento.
A Iveco tem adotado uma abordagem multienergia, oferecendo veículos com motores a diesel, gás natural (comprimido ou líquido), elétricos a bateria (BEV) e movidos a célula de combustível de hidrogênio (FCEV).
Essa estratégia é fortalecida por parcerias estratégicas, como a colaboração com a Hyundai no desenvolvimento de células de combustível para veículos comerciais e ônibus; com a Ford Trucks, em um investimento de 343 milhões de euros, para criar uma nova geração de cabines que atendam às normas europeias de visão direta e que chegarão ao mercado em 2028; e com a Plus, para o desenvolvimento de veículos autônomos.
Manutenção da identidade da marca e sede em Turim
Pelo acordo, o conselho de administração da Iveco seguirá tomando decisões estratégicas para o crescimento de longo prazo, sem grandes reestruturações ou fechamento de fábricas. A Tata Motors garante que a sede da Iveco permanecerá em Turim, preservando identidade corporativa, valores fundamentais, cultura organizacional e as principais marcas do grupo.

Mercado europeu vive momento delicado
A notícia da aquisição surge em um momento delicado para o mercado europeu de veículos comerciais. No primeiro semestre, as matrículas caíram 15,4% para caminhões acima de 3,5 toneladas e 13,2% para veículos comerciais leves na União Europeia. Além disso, persistem incertezas sobre o crescimento econômico global e as metas de redução de emissões de CO₂, que exigem cortes de 15% este ano (em relação a 2019-2020) e 45% até 2030, podendo ser revisadas pela Comissão Europeia.
Nesse contexto, alianças estratégicas estão sendo promovidas por grandes players, como a Milence (joint venture entre Daimler Truck, Traton e Volvo, criada em 2022), voltada à criação de uma rede de recarga para caminhões elétricos na Europa; a Cellcentric (Daimler Truck e Volvo, 2021), para desenvolvimento conjunto de células de combustível; e a Coretura (Daimler Truck e Volvo, 2025), para o avanço de plataformas veiculares definidas por software.
Tempo é fator crítico para o negócio
Concluir rapidamente a oferta pública da Tata Motors é essencial para que a nova estrutura esteja plenamente operacional. Um prazo muito longo pode comprometer o desempenho da Iveco no curto prazo e atrasar a execução de suas estratégias de longo prazo.
Iveco como marca premium dentro da Tata
Após a aquisição, a Iveco deverá assumir o papel de marca premium do grupo, especialmente em mercados regulados e maduros, enquanto a Tata mantém sua linha tradicional para países com maior sensibilidade a custos, como a Índia.
No entanto, sustentar essa posição premium na União Europeia exigirá investimentos significativos da Tata, tanto para fortalecer as linhas Daily e Eurocargo quanto para ampliar a participação no segmento de pesados, onde a Iveco ainda tem menos de 10% do mercado.
Expansão e sinergias globais
Para crescer, será necessário ampliar a presença da Iveco além de seus principais mercados (Itália, Espanha e França) e aumentar a capacidade de produção nas fábricas espanholas, além de decidir sobre a integração das linhas de caminhões convencionais (Madri) e elétricos (Ulm, Alemanha).
As gamas de produtos das duas empresas — Daily, Eurocargo, S-Way, X-Way e T-Way, da Iveco; Ace, Intra, Yodha, Prima, Signa, Ultra e LPT, da Tata — não se sobrepõem, o que facilita um posicionamento complementar em regiões como América do Sul, África e Ásia.
No longo prazo, a Iveco pode se beneficiar do crescimento de mercados fora da União Europeia, onde transportadoras estão migrando de veículos básicos e baratos para modelos médios e premium, como já ocorre na China, onde a participação de caminhões premium europeus no mercado saltou de cerca de 1% para até 15–20% ao final da década, segundo especialistas.


